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Uma década sem Cássia – O legado e a lacuna

Dias atrás, tive o prazer de assistir (mais uma vez) ao show da Zélia Duncan, uma das minhas cantoras favoritas, aqui perto de casa. Faltando algumas músicas para o final, Zélia disse à plateia: “Quando eu fico com saudade, eu canto”. E, em seguida, fez uma interpretação emocionada de “O Segundo Sol”, talvez o maior sucesso que Cássia Eller deixou em vida, que toca como nunca nas rádios até hoje. Foi aí que me lembrei: nesse final de 2011 (mais exatamente em 29 de dezembro), completam-se dez anos da morte de Cássia, talvez a cantora mais visceral e genuína da década de 90. Cássia se foi e, sem perigo de cair no clichê, deixou uma lacuna incomparável que ainda não conseguiu ser preenchida à altura (e talvez nunca seja), num cenário musical em que o lugar comum faz surgir pencas de novas cantoras a cada temporada.

Cássia teve uma vida breve demais e de tamanho desproporcional à dimensão de seu talento. Conseguiu transitar  com pleno conforto pela riqueza e diversidade do próprio repertório, que veio a firmar sua grandeza como intérprete. Gravou Renato Russo, Ataulfo Alves, Itamar Assumpção, Nando Reis, Beatles, Nirvana, Mutantes, Frejat e Cazuza imprimindo sua marca, o “jeito Cássia” de cantar em cada canção, aquele que fazia qualquer pessoa com conhecimento musical mínimo ouvir uma única estrofe de uma música que ela cantasse e identifica-la nos vocais sem dificuldade. A voz era rouca, forte, intensa, os tons subiam e explodiam num quase grito visceral. Mas também conseguiam uma delicadeza sutil e bela quando o tom da música lhe exigia, como ficou claro no álbum que marcou sua maturidade artística, “Com você… meu mundo ficaria completo” (1999) que trouxe, entre outros sucessos, a mesma “O Segundo Sol”, relembrada na semana passada por Zélia aqui na minha cidade.

Era uma artista de contrastes intensos, e talvez sua riqueza residia na multiplicidade de figuras que era capaz de abarcar em si. Ia aos extremos na voz, no grito, no canto e também na vida. A mesma figura que tinha uma quase ojeriza de entrevistas (fruto de uma acentuada timidez), envergava com o propósito ser publicamente aquilo que era na essência. Não precisou (e ainda bem!) se adequar a nenhum modelo artístico “vendável” por pressões da gravadora ou do meio social. “Amarelou” (nas suas próprias palavras) quando abriu o show dos Rolling Stones no Rio de Janeiro (em 1998), mas, anos depois, enquanto cantava “Come Together” no Rock in Rio 2001, levantou a blusa e acariciou os próprios seios para a multidão, que logo respondeu ao gesto de maneira inflamada. Em um Brasil ainda tímido quanto às relações homoafetivas e seus desdobramentos, assumiu publicamente a gravidez fruto de uma “produção independente”. Francisco nasceu e foi criado com a companheira de uma vida, Eugênia, que encabeçou (e ganhou), após a morte de Cássia, uma luta pela guarda do garoto que se tornou icônica no país. Mais uma vez (e sem querer) Cássia deixou mais um item em sua lista de legados.

Como a própria Eugênia declarou na ocasião de sua morte, “O mundo ficou muito mais careta depois que Cassia Eller morreu”. E a música brasileira, por sua vez, muito mais monotônica. Naquele que passou a ser intitulado por alguns “o país das cantoras”, Cássia faz muita falta. Talvez, se ela ainda estivesse entre nós, ensinaria às “novas-caras-da-MPB” ou às “revelações-de-todos-os-tempos-da-última-semana-da-música-brasileira” que uma grande cantora é mais do que uma voz doce, afinadinha, um rostinho harmonioso e uma flor presa a uma cabeleira longa e anelada. E, quando nos lembrarmos da Cássia gutural sobre o palco, que não nos esqueçamos também do seu lado mais essencial, que poderia fazê-la tranquilamente ser o eu-lírico de uma das canções que a fez despontar para o sucesso nacional: “Quem sabe ainda sou uma garotinha esperando o ônibus da escola sozinha…”.

Sobre Amanda Souza

Sua dose esporádica de vitamina.

9 comentários em “Uma década sem Cássia – O legado e a lacuna

  1. Eu nem era a maior fã de Cássia, mas me comovi às lágrimas lendo o texto. Pela importância da cantora.Pela visceralidade das suas interpretações. Porque não tinha me dignado a vê-la no palco. Porque, talvez, quem sabe, eu ainda seja uma garotinha esperando o ônibus pra escola.
    Lindo texto e bela homenagem.
    Beijo

  2. Não fui acostumado a ouvir muitas músicas de Cássia Eller, mas, “o segundo sol” me fez comprar meu primeiro CD dela. Pena que o mundo da vendagem não se lembre muito dos verdadeiros talentos a não ser que eles vendam o suficiente para serem rotulados de “o novo fenômeno” da MPB… Eu diria o novo modismo da MPB por aí afora.

  3. Eu era, ops, sou fã e fiquei muito triste quando ela se foi.
    Gostaria muito de ter visto ao vivo, mas o máximo é meu álbum da MTV que tem toda a energia dela, só fechar os olhos e vc se vê lá.
    Linda homenagem…
    Edilene

    ♫ ♪ Antes que eu visse você disse
    E eu não pude acreditar ♫ ♪

  4. Lembrar que não fui a um show dela, por que dormi demais… =(
    “Com você meu mundo ficaria completo” é um dos dvd’s que mais assisti na vida.
    Parabéns pela lembrança.

  5. Demais! Inesquecível.

  6. eu sou fã de Cássia, sempre fui. Hoje, ler seu texto e assistir o especial sobre ela na MTV, bate aquela saudade que chega a doer. Cássia, pra sempre maravilhosa.

    Parabéns pelo texto!

  7. Eu tinha só seis anos, quando dona Cássia foi embora. Sempre que a via na TV, não conseguia entender por que diabos as pessoas (pelo menos as que me rodeavam na época) sempre tinham veneno pingando da língua ao falar dela. Pra mim, era uma pessoa espontânea, cheia de vida… Com a maturidade, aprendi a enxergar muito mais que só a simpatia de Cássia; aprendi a apreciar o trabalho dela, a personalidade (tão parecida com a minha), a coragem de imprimir na testa, em letras garrafais, as ideologias, e vivê-las, sem medo. Acho que não tinha palavra melhor pra descrevê-la: visceral. Chorei, chorei mesmo. Chorei quando entendi quem era Cássia, lamentando sua partida. Chorei com as interpretações viscerais dela. Chorei com as músicas que serviram – e ainda servem – de trilha sonora pra tantos momentos importantes da minha vida. Chorei com esse texto tão lindo, que deixou ainda mais saudoso esse 29 de dezembro.
    Parabéns, Mandy!

  8. [...] da cantora Cássia Eller. Confesso, gente, fiquei órfã.  E após ler o texto da Amanda Souza sobre o assunto, decidi compartilhar uma história de fã bem enlouquecida com [...]

  9. Excelente texto Amanda. Quando Cássia Eller morreu tinha 13 anos. Apesar de sempre gostar da sua voz ímpar, só compreendi a sua perda mais tarde quando cantava e tocava suas canções com meus amigos de banda. Era um ser humano incrível e muito honesta quando cantava alguma canção, transmitindo grande emoção. Nenhuma interpretação sua seja em estúdio ou no formato ao vivo, era executada da mesma forma. Creio que ao passar desse tempo até chegarmos ao 10° ano da sua morte, vemos o quanto ela faz muita falta no cenário musical nacional. A mídia recentemente tentou comparar Maria Gadu com ela. Sinceramente, jamais irei concordar com isso. Cássia sempre será única e incomparável! Felizmente ela deixou um legado de grandes álbuns e gravações marcantes, daquelas que levaremos para sempre no rumo de nossas vidas! Até hoje fico emocionado quando ouço a canção “Palavras ao Vento”, minha preferida! Que Cássia Eller continue habitando e morando nos corações sinceros e verdadeiros dos amantes da boa música! Hoje e sempre!

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